Entre a luta de Alika pela libertação de Batanga e a trajetória dos africanos que retornaram à Costa do Ouro, novela e carnaval colocam em discussão a memória da diáspora, o pertencimento e o direito de um povo decidir o próprio destino.

O retorno à terra de origem nem sempre representa o reencontro com aquilo que ficou para trás. Em determinadas circunstâncias, voltar significa reconhecer as transformações provocadas pelo tempo, recuperar vínculos interrompidos e participar da construção de um futuro que já não pode ser separado das experiências vividas. É sob essa perspectiva que a trajetória de A Nobreza do Amor, da TV Globo, encontra um diálogo possível com o enredo da Acadêmicos do Grande Rio para o Carnaval de 2027, Sankofa Tabon: Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade.

Em universos narrativos distintos, as duas produções abordam uma questão que atravessa a história dos povos africanos e de seus descendentes: a liberdade não se resume à ausência de opressão. Ela também envolve o direito de preservar a identidade, estabelecer vínculos com o próprio território e participar das decisões que determinam o destino de uma coletividade.

A aproximação também evidencia o trabalho de profissionais que encontram na cultura um espaço para revisitar a história e ampliar a representação de experiências negras na produção artística brasileira. Na televisão, a trama foi criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior, com direção artística de Gustavo Fernandez. No carnaval, a pesquisa histórica e a construção textual do enredo da Grande Rio são assinadas por Jader Moraes e Antônio Gonzaga, que também responde pela concepção carnavalesca da agremiação.

Na reta final da novela, a jornada de Alika ganha uma dimensão que ultrapassa os conflitos individuais. Depois das experiências vividas longe de Batanga, a princesa e seus aliados decidem retornar ao reino fictício para se unir à resistência contra a tirania e lutar pela recuperação de sua soberania. A escolha transforma o sentido da viagem. Não se trata apenas de voltar para casa, mas de assumir um compromisso com a terra, com a memória e com um povo que teve seu direito de decidir o próprio futuro ameaçado.

Criada por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior, a novela apresenta uma narrativa que aproxima o universo de uma realeza africana fictícia da realidade brasileira, tendo o sertão nordestino como parte desse percurso. A colaboração de Dora Castellar, Alessandro Marson, Duba Elia e Dione Carlos, somada à pesquisa de Leandro Esteves, integra a construção de uma obra que articula referências históricas, relações culturais e elementos da ficção.

A direção artística de Gustavo Fernandez, com direção geral de Pedro Peregrino e direção de Ricardo França, também participa dessa construção ao transformar o universo imaginado pelos autores em linguagem audiovisual. O resultado é uma narrativa que utiliza a dramaturgia para colocar em circulação temas como soberania, identidade, resistência e relações entre África e Brasil.

É nesse ponto que a ficção encontra uma aproximação simbólica com a trajetória dos Tabom, tema central do desfile que a Grande Rio pretende levar à Marquês de Sapucaí em 2027. A escola de Duque de Caxias volta seu olhar para africanos que, depois de vivenciarem a escravidão no Brasil, atravessaram novamente o Atlântico e estabeleceram comunidades na região da Costa do Ouro, território correspondente, em grande parte, à atual Gana.

Diferentemente de Batanga, essa história não envolve um reino imaginário ou uma disputa pelo poder. Trata-se de uma experiência histórica marcada pelo tráfico transatlântico, pela escravização, pela resistência e pela reconstrução de identidades em outro contexto geográfico e social.

A travessia de volta e a história dos Tabom

Para compreender a trajetória dos retornados, é necessário recuperar acontecimentos que marcaram a primeira metade do século XIX. Em 1835, Salvador foi palco da Revolta dos Malês, uma das mais expressivas insurreições protagonizadas por africanos escravizados e libertos no Brasil. Organizado principalmente por africanos muçulmanos, o movimento representou uma reação à ordem escravista e às condições de violência e repressão impostas à população negra.

Após a revolta, a repressão intensificou perseguições, prisões, punições e deportações. Nesse contexto, a possibilidade de retornar à África passou a integrar a trajetória de parte dos africanos que conseguiram deixar o Brasil.

A partir de 1836, grupos de retornados chegaram à região de Acra, na então Costa do Ouro, contribuindo para a formação de uma comunidade conhecida como Tabom. A denominação é frequentemente associada à expressão portuguesa “está bom”, que teria sido incorporada à identificação desses africanos a partir do contato com a população local.

O deslocamento, entretanto, não significou simplesmente recuperar uma existência anterior à escravidão. Os retornados levaram consigo conhecimentos, práticas sociais, referências religiosas e elementos culturais adquiridos ou transformados durante a experiência no Brasil. Ao se estabelecerem novamente no continente africano, participaram da formação de uma comunidade cuja identidade passou a reunir referências de diferentes territórios.

A história dos Tabom revela, portanto, uma dimensão menos explorada da diáspora africana: o movimento de retorno. Se o tráfico de pessoas escravizadas representou uma ruptura violenta de vínculos familiares, culturais e territoriais, a travessia de volta abriu a possibilidade de reconstruir relações com o continente de origem. Mas não se tratava de desfazer o passado. Aqueles que retornaram já carregavam as marcas de uma experiência histórica que havia transformado suas vidas.

A África reencontrada também não era necessariamente a mesma deixada para trás. Entre a partida e o retorno, existiam novas relações, referências culturais e formas de pertencimento. A identidade construída nesse processo não apagava a origem africana, mas incorporava as experiências da diáspora.

O carnaval como instrumento de pesquisa, memória e representação

É justamente nessa dimensão histórica que o trabalho desenvolvido pela Grande Rio ganha relevância. Sob a concepção carnavalesca de Antônio Gonzaga, a agremiação transforma a trajetória dos retornados em uma narrativa que ultrapassa a representação de uma viagem entre continentes. O enredo propõe uma reflexão sobre as consequências da escravidão, a reconstrução de vínculos com a África e a permanência de referências culturais brasileiras no território de origem.

A pesquisa e o texto assinados por Jader Moraes e Antônio Gonzaga dão sustentação à narrativa que será apresentada na avenida. A sinopse constrói seu percurso a partir de símbolos e referências da cultura ganesa, como Sankofa, os tecidos kente e os ideogramas Adinkra, além de abordar a presença dos retornados na formação da comunidade Tabom.

O próprio conceito de Sankofa, associado à sabedoria dos povos Akan, oferece uma chave de leitura para o enredo: olhar para o passado como condição para compreender o presente e construir o futuro. A imagem do pássaro que volta a cabeça em direção à própria cauda sintetiza uma ideia que atravessa toda a proposta da escola: não existe reconstrução plena sem reconhecimento da memória.

Nesse contexto, o trabalho do carnavalesco não se limita à criação estética de alegorias e fantasias. A concepção do desfile exige transformar uma pesquisa histórica em linguagem visual, musical e cênica, permitindo que referências culturais e acontecimentos históricos sejam apresentados a um público amplo por meio da experiência do carnaval.

Ao escolher os retornados da Costa do Ouro, a Grande Rio também amplia o olhar sobre a história da diáspora africana. As narrativas sobre a escravidão no Brasil costumam concentrar sua abordagem na chegada forçada de africanos ao território brasileiro, na exploração de seus corpos e na participação dessas populações na formação da sociedade nacional.

Essa perspectiva é indispensável, mas não esgota a complexidade da história. Os deslocamentos de volta, a formação de comunidades africanas por antigos escravizados e as trocas culturais estabelecidas entre as duas margens do Atlântico também integram esse processo.

Ao levar essa trajetória para a Sapucaí, a escola coloca em evidência personagens históricos que ajudam a compreender a continuidade das relações entre Brasil e África. Mais do que representar uma travessia geográfica, o tema permite abordar as transformações culturais provocadas pela diáspora e a capacidade de diferentes povos reconstruírem suas formas de pertencimento.

Quando a ancestralidade também representa responsabilidade coletiva

A aproximação com A Nobreza do Amor ganha maior profundidade justamente nessa discussão. Ao decidir voltar a Batanga e participar da resistência, Alika e seus aliados demonstram que o vínculo com a origem não precisa permanecer restrito à memória familiar ou à identificação com um território. Ele também pode representar responsabilidade diante de uma história coletiva.

Na novela, a luta pela libertação do reino fictício passa pela recuperação da soberania e pela possibilidade de seu povo determinar os próprios caminhos. Na experiência dos retornados, a reconstrução da vida na África envolveu o estabelecimento de novos vínculos e a formação de uma comunidade a partir de trajetórias atravessadas pela escravidão e pelo deslocamento forçado.

Não são acontecimentos equivalentes, tampouco histórias que devam ser confundidas. Batanga pertence à construção ficcional da dramaturgia, enquanto a trajetória dos Tabom está inserida em processos históricos concretos. O que aproxima as duas narrativas é a possibilidade de discutir o pertencimento como uma experiência que envolve memória, autonomia e reconstrução coletiva.

Essa distinção é importante para que a aproximação cultural não transforme a história em uma extensão da ficção. A novela dramatiza a resistência de um povo diante da tirania. O enredo da Grande Rio, por sua vez, recupera uma experiência concreta da diáspora africana e a transforma em narrativa carnavalesca. Cada produção opera com linguagens próprias, mas ambas permitem refletir sobre as consequências da opressão e as diferentes formas de resistência.

A própria ideia de ancestralidade ganha outra dimensão nesse contexto. Em vez de ser tratada apenas como uma referência a um passado distante, aparece como uma presença que participa da construção do presente. A cultura não permanece imóvel em seu território de origem. Ela se transforma nos deslocamentos, nos encontros e nas experiências acumuladas por gerações.

Os Tabom representam essa complexidade. Sua trajetória evidencia que as identidades africanas e negras também são constituídas por conexões, rupturas e reconstruções. O retorno não eliminou as marcas da experiência brasileira, assim como a permanência no Brasil não apagou os vínculos com o continente africano.

Duas narrativas, uma reflexão sobre o direito de escolher o próprio destino

A aproximação entre A Nobreza do Amor e o enredo da Grande Rio não está na reprodução de um mesmo acontecimento, mas na maneira como ambas as produções colocam a liberdade no centro de suas narrativas.

Em Batanga, ela passa pela resistência à tirania e pela recuperação da soberania de um reino. Na história dos Tabom, manifesta-se na possibilidade de reconstruir a existência no continente africano, estabelecer novas relações com o território e formar uma comunidade depois da experiência da escravização.

São trajetórias diferentes, separadas pelo contexto histórico e pela natureza de suas narrativas. Ainda assim, permitem uma reflexão comum: a liberdade também depende do direito de um povo reconhecer sua história, preservar sua identidade e participar da construção do próprio futuro.

Quando a ficção apresenta personagens que retornam para lutar pela libertação de sua terra e o carnaval recupera a memória de africanos que reconstruíram suas vidas do outro lado do Atlântico, a cultura estabelece uma ponte entre passado e presente. Mais do que aproximar duas produções, esse diálogo ajuda a trazer para o debate público uma história que não termina na chegada forçada ao Brasil.

Do outro lado do Atlântico, o retorno também faz parte da memória da diáspora. E talvez seja essa a reflexão mais significativa que aproxima as duas narrativas: a liberdade não está apenas na possibilidade de deixar para trás um território de opressão, mas também no direito de voltar, reconstruir, pertencer e escolher os caminhos que virão.

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