
Enquanto Xica da Silva permanece na memória brasileira como uma personagem que atravessou gerações, Zezé Motta continua escrevendo sua própria história. Uma história que, para além dos palcos e das telas, também é feita de encontros, escolhas e afeto.
O Carnaval conta histórias. Mas as pessoas que dão vida a essas histórias também têm suas próprias histórias para contar.
Enquanto o Acadêmicos do Salgueiro prepara para o Carnaval de 2027 uma nova leitura sobre Xica da Silva, uma das personagens mais emblemáticas da cultura brasileira, outra história envolvendo uma das mulheres que ajudaram a eternizá-la no imaginário popular merece atenção: a trajetória de Zezé Motta e seu filho adotivo, Robson Motta.
Conhecida por interpretar Xica no cinema, em 1976, no filme dirigido por Cacá Diegues, Zezé construiu uma carreira marcada por personagens importantes e contribuições à cultura brasileira. Mas, para além dos palcos e das telas, existe uma história pessoal que revela outra dimensão da artista.
Recentemente, Robson emocionou o público ao compartilhar, no programa Avisa Lá Que Eu Vou, da GNT, apresentado por Paulo Vieira, como conheceu a atriz e teve sua vida transformada por aquele encontro.
Abandonado ainda criança, Robson passou parte da infância vivendo nas ruas do Rio de Janeiro. Seu maior desejo era ter uma família, uma casa e alguém que pudesse chamar de mãe. Depois de procurar o Juizado de Menores e ser encaminhado a um abrigo, conheceu Zezé durante o casamento de um educador social.
Sem saber que estava diante de uma atriz conhecida nacionalmente, contou sua história à mulher que, sensibilizada, prometeu visitá-lo e torná-lo seu filho. Zezé cumpriu a promessa. Na sexta-feira seguinte, foi ao abrigo e iniciou uma relação de maternidade que mudaria a vida dos dois.
Hoje, aos 45 anos, Robson compartilha sua trajetória no livro À Procura de uma Família, no qual aborda o acolhimento, o afeto e a importância do direito de toda criança crescer em família.
Entre a história e a memória
A conexão com Xica da Silva também permite uma reflexão sobre maternidade e construção de legados. Francisca da Silva de Oliveira, mulher negra que viveu no século XVIII, teve 14 filhos ao longo de sua vida e demonstrou preocupação com a formação e o futuro dos descendentes.
Em uma sociedade escravocrata, marcada por profundas desigualdades raciais e sociais, Xica buscou proporcionar educação aos filhos como uma possibilidade de ampliar suas oportunidades e garantir reconhecimento social.
São histórias distintas, separadas por séculos e por realidades muito diferentes, mas que permitem refletir sobre maternidade, cuidado e os caminhos que mulheres negras construíram para suas famílias.
A relação entre essas trajetórias não está em uma experiência histórica comum, mas na oportunidade de olhar para além das personagens e conhecer as mulheres que existem por trás delas.
Muito além de Xica da Silva
Com o enredo Laroyê Xica da Silva – A História por Trás da História, o Salgueiro propõe revisitar as diferentes representações de Francisca da Silva de Oliveira, desde o desfile de 1963, com Isabel Valença, passando pelo cinema, com Zezé Motta, até a televisão, com Taís Araújo.
Agora, em 2027, Zezé volta a integrar essa narrativa cultural ao participar de uma gravação especial do samba-enredo da escola, declamando um poema e cantando ao lado de Igor Sorriso.
Enquanto o Salgueiro revisita a mulher por trás do mito de Xica da Silva, a história de Robson nos convida a conhecer outra dimensão da atriz que lhe deu vida nas telas.
Porque, para além dos personagens que atravessam gerações, existem histórias pessoais que também merecem ser lembradas.
Enquanto Xica da Silva permanece na memória brasileira como uma personagem que atravessou gerações, Zezé Motta continua escrevendo sua própria história. Uma história que, para além dos palcos e das telas, também é feita de encontros, escolhas e afeto.
