Esse ano ele demorou. A Liga resolveu soltar as gravações oficiais aos poucos; a faixa do Tuiuti ficou lá, largada no Spotify, por semanas. Mas agora temos, enfim, o compilado dos sambas enredo para o carnaval 2026 do Grupo Especial do Rio de Janeiro.

Sobre esse expediente: eu não sou necessariamente contra; com estratégia e sentido, ele pode funcionar. Não foi o caso. Ficou claro que a Liga resolveu soltar dessa forma sem muito critério, a faixa do Tuiuti foi a que ficou pronta primeiro e fé.

Falando das gravações, temos mais um ano ruim. Faixas estáticas, sem sal, clima e autenticidade. As baterias têm sonoridade muito próxima, sem nenhum tempero ou elementos que as diferenciem – dá, talvez, pra reconhecer as de Mangueira e Mocidade.

Faltou, também, pensar meio minuto a mais sobre o que cada faixa realmente precisava. Como que a Viradouro não tem um alô do Ciça? Como pode, na faixa da Portela, a homenagem ao Gilsinho ficar pro último segundo?

Quanto à safra. Eu gosto da maioria dos sambas, e mesmo os que são aquém têm seu valor. Não entendo quem diz que é ruim, sinceramente.

Falando, enfim, sobre as primeiras impressões de cada escola:

Beija-Flor: em que pese o fato da comunidade reclamar que a melhor parte do samba 39 ficou de fora, a real é que a junção ficou muito boa. O samba tem uma pegada menos histórica, quase poética, e isso rendeu passagens absurdas – como o início do samba e os versos que entregam pro refrão do meio. Gosto, também, como o samba alterna trechos mais acelerados e mais cadenciados. O final, com os dois refrões, é muito bom. Só não gosto tanto da melodia no início da segunda, um pouco genérica demais.

Grande Rio: eu acho que se fala pouco do samba da Grande Rio pro ano que vem. A real é que ele é uma PORRADA. Os compositores evitaram falar do Manguebeat de uma perspectiva mais acadêmica e foram para um caminho mais panfletário – o que fica claro no Caxias comprou a luta e transforma em carnaval e na menção a Paulo Freire. A letra é ótima e a melodia não fica atrás – embora alguns versos sejam lentos demais, como o que inicia a segunda. Eu entendo quem tá com uma certa sensação de déjà vu em relação à 2025, mas isso não tira o mérito desse sambão.

Imperatriz: o samba é muito irregular e caminha no limiar entre o poético e o incrompreensível, é verdade. Mas ele não é, nem de longe, essa bomba que se fala por aí – tem, inclusive, trechos muito bons, como o início da primeira parte e o Eu juro que é melhor se entregar/Ao jeito felino provocador. Vai chegar na hora e Pitty e Mestre Lolo vão fazer miséria com o hino da GRESIL pra 2026. Anotem.

Viradouro: mais um samba irregular. Eu não entendo, por exemplo, os quatro primeiro versos do samba, e o refrão do meio é uma salada. Ainda assim, alguns trechos são bons, como o restante da primeira parte e aquele trecho mais gingado na segunda – Peça perfeita pra me completar/Feiticeiro das evocações/Atabaque mandou te chamar/Pra macumba jogar poeira/No alto, vai resistir a caixa de Moacyr/Legado do mestre Caveira. No fim das contas, o que importa é a justa e já lendária homenagem ao mestre Ciça. Nada me deixa mais ansioso pro carnaval de 2026 que esse desfile.

Portela: o enredo sobre Príncipe Custódio e as tradições afro-gaúchas rendeu um bom samba, gingado, desses que a Portela tem sabido fazer desde 2012.

Mangueira: como um amigo meu comentou outro dia, a grita contra o samba mangueirense é muito mais sobre a escolha da escola que outra coisa; a comunidade queria outra obra, que era melhor, mas esse samba não tem nada a ver com isso. O enredo sobre Mestre Sacaca rendeu uma boa composição, com trechos muito fortes – como Árvore-mulher, Mangueira quase centenária e Negro na marcação do marabaixo. Dowglas, embora ainda esteja se desenvolvendo, vai bem na gravação. A Estação Primeira de Mangueira tem samba pra 2026.

Salgueiro: genérico até dizer chega. A professora merecia muito mais.

Vila Isabel: não tenho muito a agregar sobre o samba da Vila. É realmente uma pedrada, com caminhos melódicos muito diferenciados – esse tipo de coisa que André Diniz, gênio, fica tirando da cartola. Só não acho que tem o dom de fazer o homem viajar no tempo, como uma galera fala por aí. Rezo por ouvir esse samba ao vivo, porque a gravação é simplesmente lamentável.

Tijuca: a escola do Borel tem, sem sombra de dúvidas, o samba mais subestimado pra 2026. Isso aqui é uma PORRADA, do início ao fim. O Me chamo Carolina de Jesus/ Dele herdei também a cruz é um achado, e os versos que iniciam o fim da segunda parte – Por tantas Marias/Que viram seus filhos crucificados/Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado… – são um absurdo. Art’Samba entrega a melhor gravação da carreira dele, pesadona, solene, como o samba pede. Olho na Tijuca.

Tuiuti: bom samba sobre a obra do mestre Nei Lopes e as tradições afro-caribenhas. Letra diferente, melodia gingada; em ambas, os compositores foram por caminhos pouco tradicionais. Também tem menos atenção do que deveria.

Mocidade: eu gosto do refrão de cabeça, dos versos que abrem a primeira parte e do verso que inaugura a segunda – Amor é pra sempre. Mas o samba erra onde homenagens desse tipo costumam errar: tenta-se abraçar todas as fases do artista, principais músicas, história; mas não é possível abraçar o mundo. A faixa ainda tratou de transformar um samba que era pra ser sexy e despojado em algo burocrático.

Niterói: o samba se perde ao tentar ser dolente, aspiracional, combativo, tudo em todo lugar ao mesmo tempo. Mas tem seus momentos, costurados por uma boa melodia. Destaque total pro refrão de cabeça, que é um achado. Não gostei da substituição no trecho quanto importa a vida?, acho que perde o sentido. Em um ano de gravações ruins, a de Niterói, talvez, é a que tenha mais “clima”.

By Thales Basilio

Thales Basílio é formado em Relações Internacionais e Estudos Estratégicos pela UFF, com pesquisa em carnaval carioca. É editor, redator e assessor de comunicação. Desde 2022 integra o time da Bicuda.

One thought on “Primeiras impressões da safra do Grupo Especial para 2026”

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