A Beija-Flor de Nilópolis realizou, na noite desta quarta-feira, 27 de maio, a apresentação oficial da logo e da sinopse do enredo que levará para o Carnaval 2027: “Zeneida: o sopro do pó de louro”.O encontro aconteceu na quadra da escola, em Nilópolis, e reuniu componentes, segmentos e convidados em uma programação que contou com roda de carimbó, apresentação da Bateria Soberana e leitura completa da sinopse.O enredo será desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo. A pesquisa e o texto da obra são assinados pelos enredistas Vívian Pereira, Guilherme Niegro e Bruno Laurato.Confira a sinopse na íntegra.*Beija-Flor de Nilópolis – Carnaval 2027Zeneida: O Sopro do Pó de Louro*“Louvado seja o nosso senhor jesus cristo e toda a sua falange”Ao soprar o pó de louro, eu abro caminhos. Quando cada partícula da folha alcança abrisa do vento, ela limpa o que pesa, afasta o negativo e evoca a abundância. Tragocomigo esse ensinamento antigo que fortalece meu espírito, clareia meus pensamentose guia meus passos e, portanto, passo adiante para quem um dia possa precisar. Anatureza sempre oferece a mão para quem recorre a ela.Sabe, moço, gosto de pensar que nenhuma folha cai da árvore sem que exista ummotivo, sem que o invisível permita. E toda a minha vida foi assim. Hoje, consigocompreender que tudo teve uma razão e um porquê, dos momentos mais difíceis aosmais felizes da minha vida, e acredito nisso porque sinto que sempre fui guiada eprotegida pelas forças da floresta, pelas energias dos meus caruanas e, entre eles, umque ocupa um lugar especial no meu coração: o caruana Beija-Flor, a força quereserva o cuidado a todos os que vêm destinados a ser pajé.É verdade que ele me acompanha desde meu nascimento, mas vai fazer quase trintaanos de uma data que jamais saiu da minha cabeça. Ela mora no mais nobre espaço daminha memória. Sob suas asas, o Beija-Flor me levou a conhecer o seu maravilhoso esoberano ninho, que estava tão distante de mim no corpo, mas tão próximo no espírito.Lá, diante das voltas perfeitas do Girador, ser criador, compreendi os desígnios da lua,equilibrei os três reinos da terra – vegetal, animal e mineral – e participei dorenascimento de uma nação inteira. Mas o que eu ainda não sabia, moço, é quenaquele instante não era apenas uma comunidade que se transformava. Era eutambém. Dali em diante, todos compreenderam e vivenciaram a abertura de um portalpara um novo mundo: o mundo místico dos Caruanas, morada dos seres encantadosque me guiam, dançam ao meu redor e alimentam a força que me mantém de pé, acoragem que me atravessa e a certeza que reafirmo todos os dias com orgulho: eu souZeneida Lima, a última pajé do Marajó do Povo Sakaka.É engraçado lembrar, sabe, moço, que quando eu era gitinha, me chamavam dePajerama, aquela que vem pra ser pajé. Eu não entendia muito bem o que isso queriadizer, mas entendia que vim ao mundo de maneira singular. Muito antes de eu abrir osolhos para a vida, meus ancestrais já trilhavam caminhos de luta, coragem eprotagonismo. Eu nasci de uma linhagem de gente que aprendeu a permanecer.Pelo lado de papai, corre em meu sangue a bravura de Maria Mineira Naê, a Agotimedo clã de Daomé, mulher de força imensa, cuja história de resistência atravessa otempo e ainda hoje me ensina a não baixar a cabeça diante da vida. Mas foi pela partematerna que me ocorreu o saber profundo das ervas, dos rios, da floresta e dosencantados. Meu avô, pajé conhecedor dos segredos da floresta, de um povooriginário da Ilha do Marajó, me deixou de herança o entendimento das coisas daterra. Minha existência, portanto, se dá a partir dessa confluência de mundos, onde aancestralidade é presença viva que me guia e me sustenta.Tem coisa que a gente escolhe pra vida, mas tem coisa que a vida escolhe pra gente.Tem coisa que é um encontro agendado pela ancestralidade. E, portanto, moço, temalguma maneira de fugir daquilo que já está traçado? Não tem.Meu chamado começou antes mesmo de eu chegar aqui. Meu choro ecoava ainda noventre de minha mãe, como se minha voz já conhecesse os mistérios que meaguardavam. Borboletas azuis rondavam seu ventre como um prenúncio de que anatureza já me esperava. Já enxames me cercavam como guardiões de um chamadoimpossível de negar. Eu sou a continuidade de um saber antigo que vive, respira e semanifesta através de mim. Entre o medo e o encantamento, fui sendo moldada pelaságuas que me escolheram, compreendendo, aos poucos, que minha existência eraponte entre mundos. Assim, ainda menina, reconheci minha missão como parte docaminho que me foi traçado.Levada, como a correnteza de um igarapé, nasci em Soure, no coração do Marajó,onde a água conversa com a terra e o céu parece repousar sobre os rios. Demoroualgumas luas até que o ultimato se revelasse. Há chamados que não surgem de umavez, eles vêm chegando devagar, como a brisa que atravessa a mata e sussurra semruído. Mas devagar também se chega, moço, e meu chamado chegou.Um dia senti meu corpo enfraquecer de repente. Uma ventania me atravessou pordentro, como se o mundo espiritual tivesse decidido me tocar de uma só vez. O ar setornou pesado, o tempo pareceu suspenso, e então, mundiada, eu os vi: três seres depele azul incandescente surgiram diante de mim. Tinham forma humana, mas nãopertenciam a este mundo. Eles tinham cara de peixe, só vendo.Quando recusei o que me ofereciam, fui castigada e, por dezessete dias, desapareci.Ao retornar, envolta de galhos e cipós, o que mais espantava a todos era o meu corpotodo marcado. Mais pra frente fui entender que aquilo era a flecha de Anhanga sobremim. Anhanga é força antiga. É ele quem protege a natureza e pune aqueles quedesrespeitam seus mistérios. Ao mesmo tempo em que guarda, também castiga. E omeu castigo tinha motivo: ainda não havia iniciado a missão que me trouxe pra essemundo. Eu ainda não estava assentada pajé. Anhanga me cobrou. Me chamou pela dorpara que eu compreendesse quem eu era.Não podendo fugir daquilo que já estava traçado, foi Mestre Mundico quem meensinou os fundamentos da pajelança. O mistério da encantaria só é passado de pajépara pajé. Com ele, aprendi a traduzir o que a natureza fala, aprendi a escutar o ventoe a decifrar o silêncio da mata. Passei a interpretar o banzeiro, o balé das marés e ainfluência da lua, entendi o segredo de todas as folhas e compreendi o que a jandaiacanta no alto da palmeira, bem como o que o sabiá tem a dizer com seu gorjeio. FoiMundico quem trouxe meus ancestrais indígenas para ensinar os segredos da cura apartir das folhas e explicar toda a abundância que a natureza tem, que muitas vezespassa despercebida pelo entendimento do homem.Nesta jornada, que durou mais de um ano, recebi minhas cordas, elementosfundamentais para um pajé, e conheci o mestre e contramestre delas, meu guardião, oCaruana Norato Antônio, que se apresenta na forma de uma cobra. Mundico meentregou ainda meus três maracás, instrumentos sagrados que conduz o ritmo, abre oscaminhos do transe e afasta as energias ruins. Com seu som, firmo a ligação entre oterreno e o espiritual. Enfim, ao concluir meu aprendizado, cumpriu-se o destino dapajerama: estava assentada pajé.Se por um lado ainda era menina, com apenas 12 anos, por outro tornava-me umamulher forte do Norte, forjada nas terras encantadas do Pará, onde o açaí alimenta ocorpo, o carimbó embala a alma e os rios ensinam a resistência de seu povo. Assim,segui pronta para encarar a vida de peito aberto.O que eu ainda não sabia tão bem, moço, era o quanto pode ser pesada a realidade deuma mulher com dons que ultrapassam o pequeno entendimento de muitos. Afirmoque é muito mais fácil compreender a natureza e todos os seus mistérios. Passei pormuita coisa, moço, só Deus sabe. Só vendo.Cheguei a ter a casa rodeada por toda uma população que me perseguia e, comoherdeiros da Inquisição, me tomaram como bruxa. Mas não titubeei, não dei um passopara trás e nem sucumbi. Não reneguei minha verdade e, pra ser sincera, nem oscondeno, nem guardo mágoa, nem rancor. Ocupar esse espaço é a melhor maneira deresponder a todos que me julgaram. Ódio é uma bagagem pesada demais para secarregar. Gosto de uma frase que um grande amigo, que entende o jogo da vida, mediz sempre: “fazer o bem é mais difícil que fazer o mal”.Portanto, me mantive de pé e de cabeça erguida. Amparada pelos meus caruanas epela Mãe Nazaré, que nunca soltou minha mão e nem há de soltar. Encontrei na fé acoragem e o abrigo para seguir em frente e vencer. Olhe em volta, moço, a naturezanos dá a poesia que é preciso pra viver e ver a beleza da vida, ainda que em meio acontratempos e injustiças. Eu gosto de cantar pra agradecer a vida, canto para afastar omal e canto para não esmorecer.Cantar também é reza, é um jeito de me manter firme e, sendo firme, serei fortalezapara os que precisam de mim. Serei forte para seguir criando o que vem na minhacabeça, como as notas de um órgão que me inspiram a desenhar, compor, pintar,costurar, escrever e cumprir todas as outras missões que tenho sempre com dignidadee força. Como se fosse tudo um filme, onde, no final, a caminhada toda valerá a pena.Cantar me mantém viva, é a forma de jogar pro mundo todas as mensagens que aindatenho que dizer. Cantar é minha forma de conversar com Nazaré. E eu sei que ela meouve. Quando vejo o sorriso das minhas crianças no Marajó, eu não tenho dúvidanenhuma.Moço, eu sou mãe de muitos, mas Nazinha é mãe de todos. Sei que ela, junto dosmeus caruanas, me ajuda a manter em pé o que hoje é o meu maior sonho realizado: oInstituto Caruanas da Ilha do Marajó, o lugar onde reafirmo minha promessa decriança: que nenhum outro gitinho da Ilha deveria conhecer abusos, explorações oufalta de educação.É nessa enorme escola-floresta que eu semeio meus conhecimentos e partilho comminhas crianças os saberes para construírem novas perspectivas de futuro. Quero queelas cresçam sabendo que pertencem a um lugar sagrado e que pobreza nenhuma podedeterminar o seu espaço. Quero que elas tenham acesso à cultura, à educação e àpreservação da nossa memória e da nossa terra. Quero que conheçam e mantenham anossa cerâmica, que respeitem a grande mãe natureza e que tenham como lema: “seDeus me deu, vou preservar”.Quando vejo meus pequenos uniformizados, alimentados, em sala de aula, lendo umlivro e compreendendo a importância da floresta, moço, eu entendo todas asperseguições e injustiças. Eu entendo toda a minha missão e, não nego, faria tudo denovo. Tudo.Olha, vou ser sincera, moço: “para muitos, eu não passo de um caso deparanormalidade. Talvez assunto para psicólogos. Já eu, me vejo tão somente comouma pajé, alguém que lutou e ainda luta para manter íntegra a sua fé e seus princípios,apesar de todos os abalos violentos que a vida trouxe. Venci a inveja, a maledicência eo julgamento, e tive meu saber reconhecido porque aprendi a navegar entre mundosque muitos não compreendem. Venci porque permaneci”.E vou permanecer pra sempre, porque quando meu corpo virar memória, não seenganem, eu ainda estou aqui. Me procurem na maior árvore que encontrarem naminha escola. Estarei ali, fazendo sombra para minhas crianças e para todos aquelesque precisarem de abrigo. E, se ainda me cabe um recado para a posteridade, moço,quando o mundo insistir no desequilíbrio, acredite em mim: sopre o pó de louro. Ele épai d’égua. Ele não costuma falhar

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