O POETA DO SERTÃO: JOÃO DO VALE
Setor 1 – O Berço do Poeta: Aonde a onça mora
“É no pé do lajeiro
Aonde a onça mora.”
No coração do Maranhão, num vilarejo chamado Lago da Onça (Pedreiras), cercado pela proteção do verde e pelos segredos dos rios, nasceu João.
Em meio aos animais e aos mistérios da floresta, ainda menino, aprendeu a viver com pouco — mas carregava um mundo inteiro por dizer.
Filho da terra rachada, cresceu entre o barro quente, o cheiro de roça e o silêncio sábio das lavouras. Desde cedo, descobriu que a mata fala. E, escutando a natureza, começou a compor com o que tinha: enxada, canto e sentimento. Era iletrado, mas aprendeu a escrever com a alma. Cada passo sobre o chão batido era verso. Cada gota de suor, poesia.
Neto de alforriados — ou negros libertos — João herdou a fibra de sua linhagem: a garra para vencer a labuta do campo e a resiliência para sobreviver em terras áridas. Dentro dele morava o instinto da caça e todos os ensinamentos ancestrais. Sua arte germinava da própria existência: da fome sentida, das mãos marcadas pelo trabalho, dos quintais negligenciados.
Suas composições traziam à tona a resistência — a força ancestral que pulsa no coração do povo nordestino. Foi assim, entre o cabo da enxada e a melancolia do entardecer, que florescia o poeta do povo: um cronista do sertão, que escutava os lamentos da terra com a sensibilidade dos pés e traduzia seus anseios em versos que ecoavam do coração.
Setor 2 – A Feira como Palco, o Bumba como Inspiração
Impulsionado pelo desejo de oferecer um futuro melhor à sua família, João deixou para trás a vida no campo e seguiu em direção ao burburinho colorido de São Luís. Entre o vai e vem dos feirantes, o aroma doce das frutas e os sorrisos dos fregueses, sua presença já emanava um encanto silencioso.
No compasso da cidade, sua voz encontrou o eco do povo. O mercado virou palco improvisado, e o tambor de crioula, que vibrava pelas ruas, tornou-se sua escola — onde aprendeu ritmos, sentimentos e a pulsação coletiva.
Foi imerso na magia do Bumba Meu Boi, com suas cores intensas e a energia contagiante da brincadeira, que João compreendeu a alma maranhense: uma dança que fala através do canto, onde tradição e alegria se entrelaçam.
Mergulhado nessa celebração, reconheceu a riqueza da herança que carregava. Sentiu, com orgulho, o pertencimento a uma terra onde a fé se traduz em rituais, a história respira em cantos, e a alegria se revela em movimentos cheios de vida.
Era no toque do tambor que sua identidade ancestral despertava. Na festa coletiva, florescia o sentido de comunidade.
Empunhou o maracá como amo do boi, guiando não só a dança, mas também os sonhos de sua gente.
E, como sua própria voz um dia profetizaria:
“Não posso fugir à sina de caboclo,
Tenho que cumprir o que o destino me ordenou…
Setor 3 – A Travessia: do Barro à Canção do Brasil
Alçando voos maiores que o destino lhe previa, João partiu — andarilho sonhador, com os pés na poeira quente do sertão e os olhos fincados no horizonte. Levava consigo apenas a fé: aquela que nasce da terra rachada e do peito cheio de sonho.
Seguiu caminho, carregando o sertão na alma e a coragem como bússola, até alcançar a cidade grande. No Rio, virou servente de pedreiro em Copacabana — subia andaimes com o corpo, mas era a alma que descia em poesia. Cada tijolo assentado, uma nota invisível; da pedra ao poema, João era o compositor do povo em construção.
Na busca por um espaço onde sua arte pudesse florescer, encontrou nas rádios e gravadoras a porta aberta. Era o tempo em que o baião e os ritmos nordestinos ecoavam Brasil afora — e sua música, nascida da terra e da memória do Nordeste, encontrou seu espaço no universo musical.
As ondas do rádio levaram sua voz aos quatro cantos, ecoando o cheiro de mato, o canto dos passarinhos e a saudade do sertão.
Foi nesse contexto que suas composições começaram a ser notadas. A canção “Madalena” anunciou sua chegada.
A icônica Marlene soprou os belos versos de “Estrela Miúda”:
“Estrela miúda, perdida no céu tão escuro,
Clareando um mundo de trevas com seu brilho puro…”
No lendário Zicartola, reduto de bambas, João viu sua poesia ganhar corpo de canção. E no palco do Opinião, ao lado de Zé e Nara, fez ecoar o grito do sertão. Mas foi na força bruta da voz de Maria Bethânia que o Brasil inteiro conheceu o voo do carcará — feroz, certeiro, imenso:
“Carcará! Pega, mata e come!”
Mais do que um canto sobre o pássaro, “Carcará” decifra quem foi João do Vale. Não apenas narra a sobrevivência do sertão, mas revela a própria trajetória do homem que idealizou e escreveu a canção — símbolo de resistência, astúcia e coragem. Com ela, João não apenas celebrou a força do povo nordestino: revelou, ao país, a grandiosidade de sua própria vida, marcada por luta, poesia e sobrevivência.
E a ele devemos tantas outras canções que se tornaram hinos da alma nordestina, revelando a beleza oculta dos amores, das lutas cotidianas e da realidade do sertão:
“Pisa na fulô, pisa na fulô,
Pisa na fulô,
Não maltrata o meu amor…”
(Pisa na fulô — João do Vale)
“Deu meia-noite, a Lua faz o claro,
Eu assubo nos aro, vou brincar no vento leste…”
(Na asa do vento — João do Vale)
E, em tantas outras composições, João falou da dor, das lutas, das resistências e das alegrias de um povo — sempre com punho cerrado e coração aberto. Seu canto era reza, denúncia e poesia, misturando, como ele mesmo, a força bruta e a delicadeza.
Setor 4 – João do Vale: O Poeta que Mora no Povo
João nunca partiu — sempre esteve aqui.
Fez morada nas praças, nas esquinas, nas vielas do morro.
É presença que resiste, memória que pulsa no batuque do povo.
Sua vida é retrato de quem sonha alto, mesmo com os pés fincados na lama.
Hoje, seus versos desfilam na avenida para lembrar: lutar é sonhar em movimento.
Sementes de resistência brotaram de suas palavras, que floresceram onde a dor jamais silenciou o canto.
Com voz mansa e alma imensa, João ensinou que poesia se planta, se colhe e se reparte — um legado de força, coragem e esperança que atravessa gerações.
João do Vale é a voz ancestral do povo negro que resiste e se reinventa.
É o canto vibrante da terra seca que insiste em florescer — esperança que nunca se cala, mesmo diante das adversidades.
Por isso, a Villa Rica, vestida de azul e amarelo, ergue seu pavilhão para anunciar:
O Poeta Voltou!
O chão é de asfalto, mas a alma é de barro.
A arquibancada é festa, mas o desfile é oração.
E quando o samba entoa seu nome, o Maranhão inteiro se curva.
Foi o povo quem disse, com orgulho e emoção:
“Esse é o Poeta do Sertão.”
E quando seu nome ecoa no samba,
Não é só o Maranhão que responde…
É o Brasil inteiro que se levanta pra dizer:
João do Vale vive — e vai levantar a avenida.
Aliás, foi ele mesmo que disse:
“Meu samba é a voz do povo.
Se alguém gostou,
Eu posso cantar de novo.”
Autor do Texto: Andy Rocha
