A Série Ouro tem uma boa safra para o ano que se inicia essa semana, e uma gravação à altura. Sambas que ousam, que apostam em construções diferentes, que acertam e erram.

O grupo tem, também, uma gama mais variada – e bem-vinda – de enredos em relação ao Grupo Especial.

Histórias como as de Tata Tancredo, Xande de Pilares e Leci Brandão encontram as de Xamego, Clara Camarão e Conceição Evaristo; o cometa Halley está na mesma conversa que as Pombagiras. Tem funk, teatro e até pagode russo.

Será mais um grupo de acesso gostoso de assistir.

Dito isso, aos sambas.

Estácio de Sá: uma pedrada das bandas do São Carlos. Gosto muito da trinca falso refrão (Coisa de acender, pemba de riscar) – refrão – cabeça do samba (Óh, Tata!/Traz a guia de miçanga/Pra quem é da nossa banda a demanda enfrentar). Sambaço à altura de um enredo de primeira relevância. Menção, também, ao retorno de Serginho do Porto, que divide o microfone com Tiganá – é sempre uma alegria quando ele volta para as suas escolas. Esse aqui é possivelmente meu samba favorito no ano.

Porto da Pedra: é muito difícil encontrar o tom prum samba que fala das operárias do amor, por isso eu parabenizo os compositores da GRESUPP. Dito isso, é complicado encarar uma composição que tem trechos como A ninfa divindade do erudito/libido que te leva ao infinito e Uma puta mulher, que sabe o que quer. De positivo, a melodia, variada, e a soberba interpretação do craque Wantuir na faixa oficial.

UPM: samba bom, com melodia mais pesada, bem na linha das principais obras da escola. Talvez seja o melhor samba do boi desde 2018.

União da Ilha: samba simpático, com uma melodia alegrinha que as vezes é quase dolente. A letra explica bem o enredo lúdico, embora os compositores pequem em tentar trazer, aqui e ali, um refino que não combina tanto com o tema – moderna babel, fé no porvir, Rio de Janeiro bon-vivant etc. Não é exagero falar que é o melhor samba insulano desde o retorno para o acesso.

Maricá: um samba na média que ganhou vulto com a absurda gravação oficial, especialmente com a interpretação do Zé Paulo. A abertura da faixa é um acerto enorme, e os mais de 5 minutos restantes não ficam atrás. Na letra, que é quase toda narrada na segunda pessoa do singular, me incomoda a mudança para a primeira pessoa do plural no trecho entre os refrões centrais – ambos ótimos, especialmente o primeiro. Olho em Maricá por mais um ano.

Vigário Geral: até agora não entendi direito o enredo da escola, e o samba mais confunde que outra coisa. Me parece algo como O conto do vigário encontra O achamento do velho mundo. A ver.

Arranco: depois de uma boa sétima colocação em 2025, a escola do Engenho de Dentro investiu em um enredaço – mais um! – para 2026: a história da primeira palhaça negra do Brasil, Maria Eliza Alves dos Reis. O samba é bom, com uma melodia que remete ao lúdico; destaque total para as estrofes finais – E assim, quando a dor torturar/A camélia secar, sorri/Ainda que a lona desbote/A Estrela não morre, sorri.

União do Parque Acari: para mim, a surpresa do ano. Os compositores, quase uma santíssima trindade do carnaval moderno, não tiveram medo de lançar uma obra mais “para baixo” para falar do Brasiliana – enredaço do bom Guilherme Estevão. Embora a letra não seja de simples entendimento pelo folião comum, ela narra o tema com competência. O trecho Lança teus “Caboclos”/Que o amor se manifesta é uma delícia, e prepara o ótimo Desce a ladeira!/Zum zum zum tem capoeira/Gira mundo e faz a festa que encerra a composição. Por ser um samba menos animado, vale redobrar o trabalho da harmonia.

Em Cima da Hora: é o melhor samba da escola no século, e top 10 da potente discografia da ECDH – o que não é pouca coisa. O samba da Estácio é meu favorito pelo conjunto da obra – enredo, clima, gravação – mas esse aqui é o de maior qualidade no ano. Tomara que embale um desfile histórico.

Inocentes de Belford Roxo: samba alegre e simpático para falar de um enredo alegre e simpático – e que encaixa certinho com o estilo do Ito Melodia. Tudo certo por aqui.

Botafogo Samba Clube: outra grata surpresa. Quem esperava – é o meu caso – um samba quadradão e funcional, encontrou uma composição que arrisca. Em alguns momentos a coisa dá errado, como no trecho Imaginária fonte de inspiração/Inovadora criação/O dom (…) de melodia enroscada. Mas, no geral, é um samba com boas passagens e melodia fora do óbvio – e uma das minhas faixas favoritas do ano. Destaque para o trecho Entreguei meu alvinegro pra você encher de cor, que, além de um achado, é coisa muito séria em se tratando de uma escola de torcida.

Império Serrano: o Império vive uma trajetória de acertos, e a escolha de enredo e samba para 2026 foi mais um. O estupendo tema gerou um samba que coloca a dona Conceição Evaristo – e sua obra, que permeia toda a letra da composição de forma muito inteligente – no lugar que ela merece. Gosto como o refrão de cabeça não cita o nome da homenageada, mas Ponciá – protagonista do principal romance da autora, com quem diz que costuma ser confundida; uma ótima sacada. Embora polêmica, gosto também da inclusão do trecho sobre as imperianas históricas; afinal, Conceição é ancestralidade, e para ela estar ali, quem veio antes teve que fazer o trabalho. É deferência, é legado – é Conceição Evaristo e Império Serrano. No mais, aguardo ansioso o primeiro desavisado que vai reclamar do trecho A gente combinamos de não morrer – conto que, fique para o registro, é das coisas mais incríveis produzidas em língua portuguesa em muito tempo.

Unidos da Ponte: o samba é muito melhor que o esperado. Tem alguns clichês ao longo da letra, mas uma melodia bem amarrada. Para mim, um acerto.

Bangu: destaque na safra, como a homenageada – que tanto fez pelo samba e pelas escolas de samba – merece. O refrão do meio, grande e gingado, é ótimo, e o trecho que vem na sequência – Dos atabaques, percussão foi a magia/Se nos chamam minoria/Poesia militante/É nesse instante que a mulher assume a rédea/Faz da história enciclopédia/Faz do voto seu levante – é coisa de quem sabe direitinho o que tá fazendo. Destaco também o trecho que começa com Chama o Morro do Pau da Bandeira, que prepara a escalada para o refrão de cabeça, que é muito bem feita. Bangu é novamente destaque na safra.

Jacarezinho: o samba que fecha a safra é irregular. Eu gosto muito da melodia na primeira parte, mais pesada, construindo o caminho para um refrão do meio mais gingado – e bom, embora o lema do Salgueiro tenha ficado um tanto deslocado no conjunto. A segunda parte se perde um pouco, com uma melodia mais errática e a colcha de retalhos citacional que vira e mexe encontramos nesse tipo de samba.

By Thales Basilio

Thales Basílio é formado em Relações Internacionais e Estudos Estratégicos pela UFF, com pesquisa em carnaval carioca. É editor, redator e assessor de comunicação. Desde 2022 integra o time da Bicuda.

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